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R.A.M.P., Inhuman, Shadowmare e Cicatriz: Uma Noite de Bruxas e Devoção Metálica em Portimão

Live Review: No Candy Tonight • Halloween Ceremony
Local: Pavilhão Desportivo do Clube da Pedra Mourinha, Portimão (Hellgarve)
Data: 31 de outubro para 1 de novembro de 2026

A associação cultural Marginália lançou o repto com o “No Candy Tonight • Halloween Ceremony”. O público respondeu à chamada: uma legião de seres vivos e mortos-vivos peregrinou em direção à Pedra Mourinha, as sentas indicavam a direção da Igreja, mas mas ficaram-se no Pavilhão Desportivo. Sob a égide de uma organização extremamente simpática e profissional, o recinto transformou-se num autêntico festival de celebração do metal nacional, encabeçado por um bandas Tugas do Algarve, e coroado pelos veteranos R.A.M.P. que, não sendo da região, jogaram em “casa” espiritual como orgulhosos filhos da Margem Sul, repetentes no mesmo local em dois anos consecutivos.

Pelas 21h30, o pavilhão já registava uma excelente moldura humana. Saltava à vista o ecletismo geracional — de jovens e não tão jovens (de idade) — exibindo customs de Halloween e cosplays trabalhados com um rigor estético impressionante. O ambiente acolhedor e “quente” no interior contrastava com o resfriar típico da noite outonal algarvia.

Cicatriz: Intervenção e Atitude RATM

A abertura das hostilidades coube aos Cicatriz. Detentores de uma lírica de intervenção cantada na nossa língua materna, o quarteto subiu ao palco para destilar mensagens cortantes contra todas as formas de repressão física ou moral. Com uma sonoridade fortemente ancorada no espírito contestatário e nos riffs balançados à Rage Against The Machine, a banda — que vinha de uma recente prestação em Lagos. Ponto prévio obrigatório: o som da sala esteve sempre bom em todas as atuações das bandas, um feito digno de registo.

Shadowmare: Ciclone Técnico de Thrash e Groove

Seguiram-se os Shadowmare, um dos coletivos mais carismáticos e populares do circuito algarvio atual. A banda não fez prisioneiros, debitando um agressivo e cirúrgico Technical Thrash/Melodic Death Metal salpicado por fortes laivos de Groove Metal. Mal ecoaram os primeiros acordes, os fiéis seguidores marcharam em direção ao “altar” da frente de palco para demonstrar a sua devoção. O que se seguiu foi a primeira grande agitação marítima da noite: um mosh desenfreado que culminou num bem executado wall of death, provando que a velocidade e o groove sincopado da banda são pólvora pura ao vivo.

Inhuman: Os Senhores da Melancolia Gótica

Com a noite de Halloween no seu zénite, os veteranos Inhuman subiram ao palco. O cenário e a efeméride assentavam que nem uma luva à herança sonora dos mestres de Silves. Num desfile de hinos que cruzam o peso do Death/Doom com a atmosfera do Metal Gótico — resvalando nas influências de uns Paradise Lost ou Moonspell —, o vocalista Pedro Garcia recordou, entre sorrisos, que grande parte da audiência mais jovem ainda nem tinha nascido quando alguns daqueles temas foram editados. O ponto alto da atuação viria com a icónica “EntreSombras”, momento de pura catarse coletiva, sem esquecer as incursões pelos novos singles extraídos do aclamado álbum Gloriæ (2025).

R.A.M.P.: A Tempestade Perfeita de Força, Suor e Resiliência Lusitana

A madrugada já ia longa quando, por volta das 00h50, os R.A.M.P. tomaram de assalto o palco devidamente decorado para a ocasião. A comunhão com o público foi instantânea, inaugurada de forma sublime com “Blind Enchantment”, introduzida por um arranjo renovado. Seguiu-se a estreia absoluta ao vivo de “Haunted”, bem adequada à noite que se festejava, e extraída do mais recente álbum Insidiously, e a resgata do baú “XXX Fantasy”, um tema raramente tocado que elevou a temperatura do pavilhão.

A partir daí, o chão transformou-se numa mistura escorregadia de cerveja e suor sob um autêntico “mar agitado” de moshpits e circlepits. Clássicos como “How”, “Clear”, “The Number One” (dedicada por Rui Duarte “a todos nós”) e “Dawn” mantiveram a intensidade no vermelho, quebrando apenas para a belíssima e intimista “Alone”, um dos momentos mais emotivos da noite.

Houve ainda tempo para a visceral “Anjo da Guarda” entoada em uníssono, “The Cold” e “Insane”, antecedida por uma certeira reflexão de Rui Duarte: “O nosso pior inimigo está dentro de nós”. Num dos momentos mais cénicos, o baixista Apache Neto “benzeu” os presentes, servindo de mote para a cavalgada de “Hallelujah”. A festa continuou em formato de avalanche com “Drop Down”, gerando quedas aparvalhadas no pit, mas onde o espírito de entreajuda do Metal imperou: caía um, levantavam-se todos.

O concerto parecia ter chegado ao fim, mas a aclamação do público exigiu o inevitável encore. A banda regressou transbordando energia para descarregar “All Men Taste Hell”, “Through” e a mítica versão de “Walk Like An Egyptian” (das Bangles), um marco histórico das primeiras digressões da banda.

Rui Duarte aproveitou para agradecer publicamente à imensa falange de apoio que viajou de Lisboa, da Margem Sul e de todos os cantos do Algarve. O assalto final deu-se com o clássico absoluto “Thoughts” (tema-título do icónico álbum de culto de 1992), o hino “Black Tie” e a incontornável despedida com “Try Again”.

Perto das 02h30 da manhã, dava-se o fim das hostilidades. Nas palavras de despedida, Rui Duarte relembrou o percurso histórico dos R.A.M.P., que há décadas cruzam os auditórios e palcos do sul do país a erguer a bandeira da música pesada feita em Portugal. Uma demonstração inequívoca de que, juntamente com as restantes bandas nacionais, o movimento continua bem vivo, alimentado por uma força e resiliência dignas de uma verdadeira guerrilha lusitana à imagem de Viriato. Uma noite memorável no “Hellgarve”.

Nota do editor: Acima fica uma amostra em vídeo do concerto dos R.A.M.P. em condições de grande agitação “marítima” !!!

 

Video e texto : Luis Galhote